sexta-feira, 22 de abril de 2011

Leo Szilard e a Bomba Atômica Americana

1898 – 1964


Filho de engenheiro, estudou engenharia em Budapeste, onde nasceu. Foi para a Alemanha em 1920, onde continuou ligado à engenharia, passando a estudar física logo depois. Foi aluno de Einstein, Max Plank e outros. Seus colegas o achavam excêntrico, com pensamentos originais e raciocínio diferenciado, mas muito acurado. Era o que, no vernáculo popular brasileiro, poderia se chamar de “cientista louco”. Conhecido por ser bondoso, carinhoso, era também bom para argumentar e tinha uma grande capacidade de convencimento. Szilard tinha uma capacidade muito grande para antecipar acontecimentos políticos. Qaundo apareceu o partido nazista, previu que um dia controlaria a Europa. Em 1933 saiu da Alemanha, como muitos outros judeus, assim que Hitler chegou ao poder.
Foi para Londres e, enquanto esteve lá, previu teoricamente, em 1933, o aproveitamento de energia em conseqüência de uma reação nuclear em cadeia. Obteve a patente dessa idéia, sendo, portanto o “inventor” da reação em cadeia e, em conseqüência, dos reatores nucleares. Sua idéia era a de que um nêutron (que havia sido descoberto em 1932) induzia uma desintegração atômica, que liberava, por sua vez, mais dois nêutrons, que fracionavam mais dois átomos, que liberavam quatro nêutrons, e assim por diante, gerando energia. Cedeu a patente ao Almirantado Britânico (UK Patent 630726), em 1936.
Em 1938, foi chamado para trabalhar nos EUA com Enrico Fermi, na Universidade de Columbia, em Manhattan. Após estudar a fissão, em 1939, concluiu que o urânio seria o elemento capaz de produzir a reação em cadeia. Junto com Fermi, Szilard requereu patente sobre o reactor nuclear (U.S. Patent 2708656). Requereu patente também do acelerador linear (1928) e do cíclotron (1929). 
Na sua mente, assim como de todos os cientistas europeus judeus que tiveram que deixar a Alemanha, a partir de 1933, era claro que Hitler estaria tentando desenvolver alguma arma com os conhecimentos de física dos cientistas alemães. Em março de 1939 surgiu o primeiro indício de que as previsões dos cientístas judeus na América estavam corretas. Ao ocupar a Tchecoslováquia, os nazistas interromperam as exportações de minério de urânio. Isto só poderia significar que a Alemanha pretendia utilizar o urânio exclusivamente para a pesquisa atômica.
Szilard tomou a iniciativa, entre os colegas cientistas, e deduzindo que precisava de alguém de maior importância e que pudesse ser levado a sério pelo presidente Franklin Roosevelt, convenceu Einstein, com apoio de outros físicos europeus, a escrever para o presidente e alertá-lo para as possibilidades de uma super arma sendo desenvolvida na Alemanha.
Szilard lembrou que Einstein tinha relações pessoais de amizade com a rainha da Bélgica e que poderia interceder a favor deles. Eles decidiram procurar o seu mestre.
Em 12 de julho de 1939, Szilard e o seu amigo húngaro, o físico Eugene Wigner, fizeram um curto passeio no carro deste último, em Manhattan, antes de se dirigirem a casa do mestre.
Ainda que Einstein aceitasse uma eventual mediação, optou por uma aproximação indireta, através de uma carta ao embaixador da Bélgica. Uma vez decidido, um rascunho de carta foi preparado. Ao mesmo tempo Wigner convenceu os outros de que uma aproximação direta se fazia necessário com o governo dos Estados Unidos. Em julho de 1939, o político e economista austríaco Gustav Stolper (1888-1947) entrou em contato com Szilard para informá-lo que tinha conversado sobre o assunto com Alexander Sachs, notável economista e um amigo pessoal de Roosevelt.
Mais tarde, Szilard confirmou que Sachs decidiu apoiá-los e convenceu-me completamente de que essas matérias estavam relacionadas à Casa Branca e que a melhor coisa a fazer, do ponto de vista prático, era informar Roosevelt. Ele disse-me que se elaborássemos um dossiê ele irá pessoalmente entregá-lo a Roosevelt. Szilard transmitiu a carta em sua forma final a Sachs em 15 de agosto, anexando um memorando de sua própria autoria elaborado com base nas discussões sobre a possibilidade da fissão assim como seus riscos e ameaças. Na primeira semana de setembro, Szilard não tinha ainda nenhum resultado de Sachs. Finalmente, na última semana de setembro, Szilard e Wigner contataram Sachs e ficaram sabendo pelo economista que ainda estava com a carta de Einstein. Em 2 de outubro, Szilard informou a Einstein que a carta não tinha sido encaminhada a Roosevelt. Szilard, Wigner e Teller começaram acreditar que tinham tomado uma decisão errônea com relação a Sachs. Diante desse aparente insucesso, talvez eles deveriam ativar o plano B. No entanto, finalmente, Sachs solicitou uma audiência com Roosevelt e, em 11 de outubro de 1939, encontrou-se com o presidente. Assim como freqüentemente acontece, com os melhores planos, Sachs acrescentou uma carta pessoal encaminhando a de Einstein; deste modo, o limite de 800 palavras, que ele mesmo tinha proposto, foi ultrapassado. Na carta de encaminhamento, sugeriu em primeiro lugar a criação de uma nova fonte de energia que poderia ser utilizada com o propósito de produzir força; em segundo lugar a liberação de tal reação em cadeia de um novo elemento ativo assim como algumas gramas de rádio poderia ser usada no campo médico e, finalmente, em terceiro lugar  a construção, como uma eventual probabilidade, de uma bomba de potência inimaginável até hoje.

August. 2nd, 1939
Senhor Presidente.
Algumas pesquisas desenvolvidas recentemente por E. Fermi e L. Szilard, cujas comunicações me foram entregues em manuscritos, induziram-me a considerar que o elemento urânio possa ser transformado, num futuro próximo, em uma nova e importante fonte de energia. Alguns aspectos da situação justificam uma certa vigilância e uma rápida intervenção por parte da administração estatal.
…foi confirmada a possibilidade (graças aos trabalhos de Juliot Curie, na França e os de Fermi e Szilard,na América) que torna possível produzir, em uma grande massa de urânio, uma “reação nuclear em cadeia” capaz de gerar grande quantidade de energia…
…este novo fenômeno poderá permitir a construção de bombas extremamente potentes…
Sou conhecedor do fato de que a Alemanha efetivamente bloqueou a venda de urânio das minas da Tchecoslováquia…
…no Kaiser Wilhelm Institut de Berlim, estão sendo realizadas, em parte, as mesmas pesquisas sobre o urânio que se desenvolvem nos EUA.
Cordialmente, Albert Einstein


Em resposta à carta, Roosevelt criou um comitê consultivo para o urânio, com representantes do exército e da marinha, todos americanos, e alguns cientistas estrangeiros, dentre eles Fermi e Szilard. Este comitê recebeu 6 mil dólares para as pesquisas iniciais. Tudo isso era evidentemente simbólico, e teria continuado assim, se não fosse o ataque japonês a Pearl Harbor, a base americana dos EUA no Havaí. A partir de então, um volume enorme de recursos foi injetado no projeto de construção de armas nucleares. Desde 1942 até o fim da guerra, foram gastos 2 bilhões de dólares no Projeto Manhattan, coordenado pelo general Leslie Groves, para viabilizar rapidamente a bomba. Groves era também engenheiro, e dedicou-se com afinco à missão. Impôs ao projeto um ritmo frenético para chegar logo a resultados. Nomeou J. Robert Oppenheimer, físico americano, como diretor científico do Los Alamos Laboratory.
Enquanto isto, na Universidade de Chicago, Szilard continuou trabalhando com Fermi e outros no desenvolvimento do primeiro “reator neutrônico”, uma pilha de urânio e grafite com a qual se obteve a primeira reação nuclear em cadeia e autosustentável, em 1942. Quando conseguiram este feito, poderiam continuar e trabalhar em reatores nucleares, sem a necessidade de trabalhar com bombas atômicas. Mas o esforço dos americanos e aliados estava concentrado em fazer bombas, não em reatores nucleares. Szilard ficava cada vez mais contrariado à medida que a guerra continuava, pois era forçado a ceder a direção de seus experimentos científicos aos militares. Ele se irritava tanto que enfrentou o general Groves em numerosas ocasiões. O general era rude, grosso e impaciente com raciocínios abstrados. Detestava Szilard, a quem considerava não confiável e maluco.
À medida que o tempo passava e a derrota dos alemães já era previsível, o ressentimento de Szilard com o governo americano aumentava. Ele e outros cientistas já tinham dúvidas sobre a utilização da bomba. A partir de março de 1945, as informações obtidas por tropas americanas que invadiam a Alemanha começaram a se espalhar entre os cientistas de Los Alamos. Alguns ficaram aliviados, outros consternados. Os nazistas estavam muito atrasados, com relação aos EUA, e nunca tiveram condições de desenvolver armas nucleares.
Leo Szilard, em um manifesto com o apoio de muitos outros cientistas, chegou a tentar convencer Roosevelt a desistir do projeto de construir a bomba, mas o presidente morreu no dia 12 de abril de 1945. Szilard esperava que o governo americano não usasse a bomba. Em maio de 1945 os alemães se renderam. Em julho houve o teste de um artefato nuclear no deserto do Novo México, EUA. Infelizmente para os japoneses, que já haviam pedido aos russos para negociarem um tratado de paz, os americanos não se interessaram. Os americanos estavam determinados a usar a bomba. O novo presidente, Harry Truman, decidiu simplesmente usar seu poder, destruindo totalmente Hiroshima e parcialmente Nagasaki, com duas bombas nucleares. Eram chamadas de bombas atômicas por que Groves achava que tinha um maior apelo popular, do que usar nuclear, que o povo poderia associar com núcleo biológico.
Depois da guerra, a tecnologia nuclear continuou a desenvolver bombas, e também reatores. 
Dentre as invenções de Szilard, o cíclotron é hoje usado até no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear – CDTN, principalmente para a produção de radiofármacos. O cíclotron do CDTN é de fabricação da GE Healthcare. Basicamente, o cíclotron é um equipamento no qual um feixe de partículas sofre a ação de um campo elétrico com uma freqüência alta e constante e um campo magnético perpendicular estático. Em 1939, o físico americano Ernest Lawrence recebeu o Prêmio Nobel pela invenção do cíclotron. O crédito pelo invento ficou para Lawrence, mas Szilard o inventou primeiro. A sua patente alemã foi requerida em 5 de janeiro de 1929. Lawrence concebeu a idéia muitos meses depois, e a sua requisição para patente americana só foi preenchida em 26 de janeiro de 1932.
Conta-se que no final da guerra Szilard, judeu, pediu a um padre católico que rezasse uma missa para as vítimas das bombas atômicas, japoneses budistas. Desiludido com o uso de suas pesquisas e angustiado pelo fracasso na tentativa de impedir os primeiros ataques atômicos na II Guerra, Szilárd trocou de especialidade e passou a pesquisar a Biologia Molecular. Também deu início à carreira de ativista pela missão de preservar vidas e garantir a liberdade humana. Sempre lamentou seu papel no desenvolvimento das primeiras bombas nucleares.

Nenhum comentário:

Postar um comentário