domingo, 24 de abril de 2011

O Projeto Manhattan

Físicos importantes como Leo Szilard, Edward Teller e Eugene Wigner, todos europeus que fugiram para os Estados Unidos a fim de escapar da guerra, sentiram a necessidade de alertar o governo norte-americano sobre o risco que surgiria caso a Alemanha desenvolvesse armas nucleares primeiro. 
Albert Einstein e Szilard ficaram preocupados a ponto de escreverem uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, descrevendo a ameaça alemã e a possibilidade de construir armas poderosas com urânio. Depois de consultar o economista Alexander Sachs, Roosevelt decidiu que seria necessário começar as pesquisas sobre energia nuclear e estabeleceu o Comitê Consultivo do Urânio, presidido por Lyman J. Briggs.
O processo se acelerou com a ajuda de Vannevar Bush, presidente da Carnegie Foundation, que foi apontado para a presidência do Comitê Nacional de Pesquisa de Defesa por Roosevelt, na metade de 1940. Bush integrou o Comitê do Urânio à nova organização, o que propiciou mais verbas e mais segurança para os cientistas. O passo seguinte foi dado em 28 de junho de 1941, quando Bush se tornou diretor do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento Científico
Os cientistas do projeto Manhattan

O Comitê Nacional de Pesquisa de Defesa se tornou um órgão consultivo do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento Científico, e o Comitê do Urânio passou a ser conhecido como Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento Científico - Seção Urânio, bem como pelo codinome S-1.
Locais onde o projeto era executado
Ainda em julho de 1941, Bush recebeu o impulso que precisava para colocar o projeto em funcionamento real. O Comitê MAUD, versão do Reino Unido para o programa de desenvolvimento de uma arma nuclear, lançou o Relatório MAUD. Embora os recursos da Inglaterra estivessem distendidos em função da situação do país na Segunda Guerra Mundial, as contribuições teóricas dos britânicos para o projeto da bomba foram inestimáveis, e o relatório confirmou para muitos de seus leitores que uma bomba nuclear e o enriquecimento do urânio-235 eram definitivamente possíveis.
Bush estabeleceu diversos grupos de pesquisa, a maioria dos quais em universidades como Berkeley e Colúmbia, e colocou a operação em funcionamento com injeções de verbas ainda mais elevadas - Lawrence, por exemplo, recebeu US$ 400 mil para suas pesquisas sobre eletromagnetismo. O sigilo ainda era uma prioridade crucial, apesar do dinheiro adicional, e os cientistas escolheram locais estranhos de trabalho a fim de esconder seus esforços - muita gente se choca ao descobrir, hoje, que os físicos Enrico Fermi e Arthur Compton usaram o espaço sob as arquibancadas do Stagg Field, o estádio de tênis da Universidade de Chicago, para conduzir a primeira reação nuclear em cadeia, em 1942. 
Oppenheimer, à esquerda, com  Leslie Groves
Em março de 1942, o Corpo de Engenharia do exército dos Estados Unidos se envolveu diretamente nas reuniões do S-1 e, em 18 de setembro, o coronel Leslie Groves se tornou diretor do projeto, que assumiu oficialmente o nome de Projeto Manhattan. Com formação sólida em engenharia (ele supervisionou a construção do Pentágono), Groves provou ser um administrador muito eficiente e contribuiu imensamente para o sucesso da bomba em um prazo incrivelmente curto.
Ao longo dos 12 meses seguintes, Groves selecionaria diversos locais nos Estados Unidos que contribuiriam para a construção da bomba, entre os quais Oak Ridge, Tennesee (Local X) e Hanford, Washington (Local W). Os dois locais abrigariam imensas instalações de produção de plutônio e urânio. Quando Groves selecionou Robert Oppenheimer, professor de Física teórica em Berkeley, como diretor do Projeto Y. 
Os dois escolheram Los Alamos, no Novo México, como o local que serviria de pólo central ao Projeto Manhattan. 
Alojamento em Los Alamos
Los Alamos, bem como as instalações no Tennessee e no Estado de Washington, era um lugar isolado, selecionado por motivos de segurança, mas seria difícil imaginar que era esse o caso, diante de fotos que mostram essas instalações em plena produção. O desolado altiplano desértico de Los Alamos, por exemplo, foi transformado em uma pequena cidade, com laboratórios, escritórios, refeitórios e alojamentos para todos os envolvidos no projeto. Oppenheimer trabalhou com afinco para reunir os melhores cérebros científicos do país e, por quase três anos, do fim de 1942 ao bombardeio de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, milhares de pessoas trabalharam para superar o desafio envolvido na construção de    uma arma atômica. 
Teste da Bomba Atômica Trinity
A segurança era extremamente rígida em Los Alamos e as pessoas mal recebiam autorização para manter contato com seus familiares e amigos durante a sua estadia no Local Y. Os guardas do complexo eram rigorosos quanto à concessão de licenças de segurança e havia arame farpado em torno de todo o complexo. O Projeto Manhattan estava envolto em tamanho segredo que algumas pessoas nem sabiam para que serviria o trabalho em que estavam envolvidas, até que surgiu a notícia sobre a bomba que explodiu em Hiroshima. 
Dirigentes examinando o local da explosão
Dois tipos de bombas nucleares foram projetados em Los Alamos: uma bomba de implosão e uma bomba de disparo. Depois que importantes aperfeiçoamentos foram realizados no implosivo, os especialistas enfim selecionaram um local para o teste da primeira bomba atômica - Alamogordo, um campo de provas de explosivos no deserto, a 340 quilômetros ao sul de Los Alamos. O local recebeu o codinome "Trinity", para o teste de uma bomba de plutônio. Oppenheimer teria supostamente recordado um poema de John Donne que dizia "abalai meu coração, ó Deus trino", e considerou que a comparação procedia. Às 5h30min do dia 16 de junho de 1945, a bomba foi acionada. Com uma carga equivalente a 18 mil toneladas de dinamite, a bomba produziu uma luz vinte vezes mais brilhante que a do Sol. A luz chegou a ser vista em cinco estados vizinhos. Ouvida a mais de 300 quilômetros de distância, a explosão abriu uma cratera de 400 metros de diâmetro em um milionésimo de segundo. Dentro dela, surgiu um material verde e transparente, resultante da fundição dos minerais. A substância foi chamada trinitita, em referência ao ponto do deserto onde ocorreu a explosão: a Era Atômica havia começado.
Horas depois da explosão, o cientista Robert Oppenheimer, um dos chefes do Projeto Manhattan, inspecionou o local e exclamou: “Tornei-me a Morte, a Destruidora dos Mundos.”
Menos de um mês mais tarde, os EUA usariam a bomba de implosão e a bomba de disparo, que não havia sido testada, a fim de coagir os japoneses a se render. Ainda que a bomba tenha teoricamente encerrado o conflito no exterior e evitado a necessidade de combater em terra no Japão, sua existência deflagrou uma corrida armamentista nuclear que mudaria radicalmente o mundo na segunda metade do século 20.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O início da Corrida Nuclear - A Bomba Atômica Americana

O início da Corrida Nuclear (ou Corrida Armamentista) tem suas bases históricas na segunda guerra mundial. Deter o Comunismo foi o principal objetivo da segunda grande guerra, de um lado a Alemanha e sua política expansionista e revanchista, aliou-se ao Japão que já travava conflito com a China Comunista e a União Soviética.
A Alemanha Nazista embora travasse conflito com outras nações capitaistas como a França e o Reino Unido visava principalmente destruir a União Soviética. O seu aliado Japão também tinha o mesmo objetivo, tanto que já  em 1936, o governo japonês assinou com a Alemanha o Pacto Anti-Komintern (anticomunista) com o objetivo de combater o comunismo soviético. Sendo que se atentarmos para a data veremos segunda guerra oficialmente teve início somente em 1939. Os Japoneses até então recebiam apoio dos Estados Unidos da América, porém a ambição expansionista japonesa cometeu algumas atitudes que desagradaram os EUA.
Por volta de 1940, o Japão já havia ocupado vários territórios no Pacífico, e tentava agora aumentar a sua influência no Sudoeste Asiático, invadindo, em Junho de 1941, a Indochina. O governo dos Estados Unidos da América, indignado, impõe sanções econômicas ao Japão. Como represália, a 7 de Dezembro de 1941, a aviação japonesa ataca Pearl Harbor, a maior base norte-americana do Pacífico. Em apenas duas horas, os pilotos japoneses conseguiram inutilizar todos os navios ancorados no porto, cinco navios de guerra e destruir ou afundar outras quinze embarcações.
A partir deste momento os EUA entram oficialmente na Segunda Guerra Mundial.
Paradoxalmente os EUA são obrigados a aliar-se a União Soviética, algo em termos de ideologia política, inimaginável. Essa aliança lançou as bases da Guerra fria e bipolarização ideológica do planeta. Por trás desta aliança se escondia a idéia tradicional de que cabe aos vencedores de qualquer guerra o direito de controlar os territórios conquistados aos perdedores, anexando-os ou estabelecendo neles governos de sua confiança.
Hitler alimentava a esperança de que as contradições internas entre os aliados, especialmente a perspectiva de ocupação da Europa Oriental pelos soviéticos, levasse os anglo-americanos a firmarem uma paz em separado com a Alemanha. Afinal, como ele disse aos seus generais: "Jamais houve, em toda a história, uma coalizão composta por parceiros tão heterogêneos quanto essa de nossos inimigos. Estados ultra-capitalistas de um lado e um estado marxista do outro"
Porém isto não aconteceu, a União Soviética conseguiu um revés incrível contra os Nazistas expulsando-os de seu território. Embora Hitler tivesse razão os EUA tinham outros planos, os norte americanos temiam que a Alemanha realmente tivesse desenvolvido a Bomba Atômica, e ao mesmo tempo desenvolviam a sua própria Bomba pensando já em uma nova fase da guerra que viria após a derrota Alemã imposta pela União Soviética. Mesmo após a derrota dos Alemães os Americanos fizeram o  uso da Bomba. Assim como os nazistas os norte americanos também pretendiam combater o comunismo soviético, porém primeiro precisavam apoderar-se e todo o conhecimento nuclear desenvolvido pelos cientistas alemães antes que os soviéticos o fizessem - para isso foi cria a Also - e também precisavam derrotar seu novo inimigo colonialista o Japão.
O revés Soviético sobre a Alemanha mostrou a incrível capacidade do exército Soviético (Chamado de exército Vermelho). Somente uma grande arma de destruição poderia intimidar os comunistas. As perspectivas norte-americanas eram bastante animadoras: previa-se que aquele novo tipo de bomba seria a arma mais arrasadora de todos os tempos, com um poder de destruição incomparavelmente maior que o das armas convencionais. E isso daria aos Estados Unidos uma superioridade militar absoluta entre todas as nações do mundo. No entanto, ainda não se sabia se o modelo então em desenvolvimento de fato funcionaria e, se o fizesse, com que potência. Foi dito ao presidente que os cientistas que participavam do projeto secreto estavam fazendo tudo para preparar, tão rapidamente quanto possível, um teste experimental decisivo. Se de fato a arma funcionasse, os Estados Unidos seriam a única superpotência: teriam não só um formidável recurso militar, mas também um poderoso elemento de pressão política. Que país ousaria afrontar diretamente os interesses norte-americanos, sob a ameaça implícita de ser atacado por bombas como aquela? Era exatamente o que os EUA precisavam para ir à conferência dos Três  nações vencedoras da guerra e fazer prevalecer suas posições. A bomba era o argumento decisivo para levar União Soviética a retroceder em suas pretensões de controlar novos territórios, limitando a experiência socialista à União Soviética.Como até então o Japão embora visivelmente derrotado relutava e oficialmente não se rendia ao julgo norte-americano, foram eleitos para cobaias para a demonstração do incrível poder de destruição conquistado pela nação norte-americana. Foram então detonadas as Bombas Atômicas sobre Hiroshima e Nagazáqui. Contudo para os Norte-americanos a maior surpresa tinha sido o fracasso de sua tentativa de intimidar soviéticos com o uso da  bomba atômica. Em vez de se tornar mais manejável - termo usado pelo secretário de Estado dos EUA, James Byrnes, para prever o recuo dossoviéticos -, estes persistiam obstinadamente em suas posições e reivindicações.  Havia muito tempo que  o serviço soviético de espionagem estava informando sobre a existência e o desenvolvimento do Projeto Manhattam. Os soviéticos já tinham até iniciado seu próprio projeto nuclear, coisa de que os EUA nem sequer suspeitavam. Temos aqui o início a chamada Guerra Fria também chamada de  Guerra Nuclear, Corrida Armamentista ou Corrida Nuclear.
Veremos nos próximos posts o Projeto Manhatan - o projeto Norte-americano que desenvolveu a Bomba Atômica. Também veremos as consequências da Explosão da Bomba Nuclear em Hiroshima e Nagazáqui. E além disso o desenvolvimento das Bombas Atômicas Soviéticas.

Leo Szilard e a Bomba Atômica Americana

1898 – 1964


Filho de engenheiro, estudou engenharia em Budapeste, onde nasceu. Foi para a Alemanha em 1920, onde continuou ligado à engenharia, passando a estudar física logo depois. Foi aluno de Einstein, Max Plank e outros. Seus colegas o achavam excêntrico, com pensamentos originais e raciocínio diferenciado, mas muito acurado. Era o que, no vernáculo popular brasileiro, poderia se chamar de “cientista louco”. Conhecido por ser bondoso, carinhoso, era também bom para argumentar e tinha uma grande capacidade de convencimento. Szilard tinha uma capacidade muito grande para antecipar acontecimentos políticos. Qaundo apareceu o partido nazista, previu que um dia controlaria a Europa. Em 1933 saiu da Alemanha, como muitos outros judeus, assim que Hitler chegou ao poder.
Foi para Londres e, enquanto esteve lá, previu teoricamente, em 1933, o aproveitamento de energia em conseqüência de uma reação nuclear em cadeia. Obteve a patente dessa idéia, sendo, portanto o “inventor” da reação em cadeia e, em conseqüência, dos reatores nucleares. Sua idéia era a de que um nêutron (que havia sido descoberto em 1932) induzia uma desintegração atômica, que liberava, por sua vez, mais dois nêutrons, que fracionavam mais dois átomos, que liberavam quatro nêutrons, e assim por diante, gerando energia. Cedeu a patente ao Almirantado Britânico (UK Patent 630726), em 1936.
Em 1938, foi chamado para trabalhar nos EUA com Enrico Fermi, na Universidade de Columbia, em Manhattan. Após estudar a fissão, em 1939, concluiu que o urânio seria o elemento capaz de produzir a reação em cadeia. Junto com Fermi, Szilard requereu patente sobre o reactor nuclear (U.S. Patent 2708656). Requereu patente também do acelerador linear (1928) e do cíclotron (1929). 
Na sua mente, assim como de todos os cientistas europeus judeus que tiveram que deixar a Alemanha, a partir de 1933, era claro que Hitler estaria tentando desenvolver alguma arma com os conhecimentos de física dos cientistas alemães. Em março de 1939 surgiu o primeiro indício de que as previsões dos cientístas judeus na América estavam corretas. Ao ocupar a Tchecoslováquia, os nazistas interromperam as exportações de minério de urânio. Isto só poderia significar que a Alemanha pretendia utilizar o urânio exclusivamente para a pesquisa atômica.
Szilard tomou a iniciativa, entre os colegas cientistas, e deduzindo que precisava de alguém de maior importância e que pudesse ser levado a sério pelo presidente Franklin Roosevelt, convenceu Einstein, com apoio de outros físicos europeus, a escrever para o presidente e alertá-lo para as possibilidades de uma super arma sendo desenvolvida na Alemanha.
Szilard lembrou que Einstein tinha relações pessoais de amizade com a rainha da Bélgica e que poderia interceder a favor deles. Eles decidiram procurar o seu mestre.
Em 12 de julho de 1939, Szilard e o seu amigo húngaro, o físico Eugene Wigner, fizeram um curto passeio no carro deste último, em Manhattan, antes de se dirigirem a casa do mestre.
Ainda que Einstein aceitasse uma eventual mediação, optou por uma aproximação indireta, através de uma carta ao embaixador da Bélgica. Uma vez decidido, um rascunho de carta foi preparado. Ao mesmo tempo Wigner convenceu os outros de que uma aproximação direta se fazia necessário com o governo dos Estados Unidos. Em julho de 1939, o político e economista austríaco Gustav Stolper (1888-1947) entrou em contato com Szilard para informá-lo que tinha conversado sobre o assunto com Alexander Sachs, notável economista e um amigo pessoal de Roosevelt.
Mais tarde, Szilard confirmou que Sachs decidiu apoiá-los e convenceu-me completamente de que essas matérias estavam relacionadas à Casa Branca e que a melhor coisa a fazer, do ponto de vista prático, era informar Roosevelt. Ele disse-me que se elaborássemos um dossiê ele irá pessoalmente entregá-lo a Roosevelt. Szilard transmitiu a carta em sua forma final a Sachs em 15 de agosto, anexando um memorando de sua própria autoria elaborado com base nas discussões sobre a possibilidade da fissão assim como seus riscos e ameaças. Na primeira semana de setembro, Szilard não tinha ainda nenhum resultado de Sachs. Finalmente, na última semana de setembro, Szilard e Wigner contataram Sachs e ficaram sabendo pelo economista que ainda estava com a carta de Einstein. Em 2 de outubro, Szilard informou a Einstein que a carta não tinha sido encaminhada a Roosevelt. Szilard, Wigner e Teller começaram acreditar que tinham tomado uma decisão errônea com relação a Sachs. Diante desse aparente insucesso, talvez eles deveriam ativar o plano B. No entanto, finalmente, Sachs solicitou uma audiência com Roosevelt e, em 11 de outubro de 1939, encontrou-se com o presidente. Assim como freqüentemente acontece, com os melhores planos, Sachs acrescentou uma carta pessoal encaminhando a de Einstein; deste modo, o limite de 800 palavras, que ele mesmo tinha proposto, foi ultrapassado. Na carta de encaminhamento, sugeriu em primeiro lugar a criação de uma nova fonte de energia que poderia ser utilizada com o propósito de produzir força; em segundo lugar a liberação de tal reação em cadeia de um novo elemento ativo assim como algumas gramas de rádio poderia ser usada no campo médico e, finalmente, em terceiro lugar  a construção, como uma eventual probabilidade, de uma bomba de potência inimaginável até hoje.

August. 2nd, 1939
Senhor Presidente.
Algumas pesquisas desenvolvidas recentemente por E. Fermi e L. Szilard, cujas comunicações me foram entregues em manuscritos, induziram-me a considerar que o elemento urânio possa ser transformado, num futuro próximo, em uma nova e importante fonte de energia. Alguns aspectos da situação justificam uma certa vigilância e uma rápida intervenção por parte da administração estatal.
…foi confirmada a possibilidade (graças aos trabalhos de Juliot Curie, na França e os de Fermi e Szilard,na América) que torna possível produzir, em uma grande massa de urânio, uma “reação nuclear em cadeia” capaz de gerar grande quantidade de energia…
…este novo fenômeno poderá permitir a construção de bombas extremamente potentes…
Sou conhecedor do fato de que a Alemanha efetivamente bloqueou a venda de urânio das minas da Tchecoslováquia…
…no Kaiser Wilhelm Institut de Berlim, estão sendo realizadas, em parte, as mesmas pesquisas sobre o urânio que se desenvolvem nos EUA.
Cordialmente, Albert Einstein


Em resposta à carta, Roosevelt criou um comitê consultivo para o urânio, com representantes do exército e da marinha, todos americanos, e alguns cientistas estrangeiros, dentre eles Fermi e Szilard. Este comitê recebeu 6 mil dólares para as pesquisas iniciais. Tudo isso era evidentemente simbólico, e teria continuado assim, se não fosse o ataque japonês a Pearl Harbor, a base americana dos EUA no Havaí. A partir de então, um volume enorme de recursos foi injetado no projeto de construção de armas nucleares. Desde 1942 até o fim da guerra, foram gastos 2 bilhões de dólares no Projeto Manhattan, coordenado pelo general Leslie Groves, para viabilizar rapidamente a bomba. Groves era também engenheiro, e dedicou-se com afinco à missão. Impôs ao projeto um ritmo frenético para chegar logo a resultados. Nomeou J. Robert Oppenheimer, físico americano, como diretor científico do Los Alamos Laboratory.
Enquanto isto, na Universidade de Chicago, Szilard continuou trabalhando com Fermi e outros no desenvolvimento do primeiro “reator neutrônico”, uma pilha de urânio e grafite com a qual se obteve a primeira reação nuclear em cadeia e autosustentável, em 1942. Quando conseguiram este feito, poderiam continuar e trabalhar em reatores nucleares, sem a necessidade de trabalhar com bombas atômicas. Mas o esforço dos americanos e aliados estava concentrado em fazer bombas, não em reatores nucleares. Szilard ficava cada vez mais contrariado à medida que a guerra continuava, pois era forçado a ceder a direção de seus experimentos científicos aos militares. Ele se irritava tanto que enfrentou o general Groves em numerosas ocasiões. O general era rude, grosso e impaciente com raciocínios abstrados. Detestava Szilard, a quem considerava não confiável e maluco.
À medida que o tempo passava e a derrota dos alemães já era previsível, o ressentimento de Szilard com o governo americano aumentava. Ele e outros cientistas já tinham dúvidas sobre a utilização da bomba. A partir de março de 1945, as informações obtidas por tropas americanas que invadiam a Alemanha começaram a se espalhar entre os cientistas de Los Alamos. Alguns ficaram aliviados, outros consternados. Os nazistas estavam muito atrasados, com relação aos EUA, e nunca tiveram condições de desenvolver armas nucleares.
Leo Szilard, em um manifesto com o apoio de muitos outros cientistas, chegou a tentar convencer Roosevelt a desistir do projeto de construir a bomba, mas o presidente morreu no dia 12 de abril de 1945. Szilard esperava que o governo americano não usasse a bomba. Em maio de 1945 os alemães se renderam. Em julho houve o teste de um artefato nuclear no deserto do Novo México, EUA. Infelizmente para os japoneses, que já haviam pedido aos russos para negociarem um tratado de paz, os americanos não se interessaram. Os americanos estavam determinados a usar a bomba. O novo presidente, Harry Truman, decidiu simplesmente usar seu poder, destruindo totalmente Hiroshima e parcialmente Nagasaki, com duas bombas nucleares. Eram chamadas de bombas atômicas por que Groves achava que tinha um maior apelo popular, do que usar nuclear, que o povo poderia associar com núcleo biológico.
Depois da guerra, a tecnologia nuclear continuou a desenvolver bombas, e também reatores. 
Dentre as invenções de Szilard, o cíclotron é hoje usado até no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear – CDTN, principalmente para a produção de radiofármacos. O cíclotron do CDTN é de fabricação da GE Healthcare. Basicamente, o cíclotron é um equipamento no qual um feixe de partículas sofre a ação de um campo elétrico com uma freqüência alta e constante e um campo magnético perpendicular estático. Em 1939, o físico americano Ernest Lawrence recebeu o Prêmio Nobel pela invenção do cíclotron. O crédito pelo invento ficou para Lawrence, mas Szilard o inventou primeiro. A sua patente alemã foi requerida em 5 de janeiro de 1929. Lawrence concebeu a idéia muitos meses depois, e a sua requisição para patente americana só foi preenchida em 26 de janeiro de 1932.
Conta-se que no final da guerra Szilard, judeu, pediu a um padre católico que rezasse uma missa para as vítimas das bombas atômicas, japoneses budistas. Desiludido com o uso de suas pesquisas e angustiado pelo fracasso na tentativa de impedir os primeiros ataques atômicos na II Guerra, Szilárd trocou de especialidade e passou a pesquisar a Biologia Molecular. Também deu início à carreira de ativista pela missão de preservar vidas e garantir a liberdade humana. Sempre lamentou seu papel no desenvolvimento das primeiras bombas nucleares.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A Bomba Atômica Alemã - segunda parte

Foi durante o mês de Setembro de 1939 que a Divisão de Pesquisa do Arsenal do Exército liderada por Erich Schumann investigou a possibilidade de construção de bombas e reactores nucleares, possibilidade que parecia concretizável depois da descoberta da Fissão do Urânio, assim a primeira medida para a sua construção passou pela total proibição da exportação de urânio da Alemanha. Esta proibição decorrera da escassez do minério que a Alemanha enfrentava. Na época, a fonte mais importante era o Congo Belga, fora da alçada alemã, mas quando a Bélgica foi invadida em 1940, todo o urânio aí armazenado caiu em mãos alemãs. Meses antes, em Abril, a Noruega tinha também ela sido ocupada, trazendo também para a Alemanha o acesso à Companhia Hidro-eléctrica de Vermork, a única unidade europeia de produção de deutério, também conhecido como Água Pesada. O deutério devia agir como moderador da reacção atómica no seu reactor experimental. Esta substância, que retardava a velocidade dos neutrons no seio do reactor tinha uma alternativa, a grafite, substância que aliás seria usada pelos americanos na construção do seu primeiro reactor pelo físico italiano Enrico Fermi em Chicago quando corria o ano de 1942. Os investigadores alemães tinham contudo desprezado desde o início da grafite porque os cálculos do professor Bothe da Universidade de Heidelberg feitos em 1940 tinham-nos levado a crer que não funcionaria, daí a opção pela Água Pesada.
A maior parte da pesquisa nuclear básica era realizada no Instituto Kaiser Wilhelm em Berlim e na sua filial de Leipzig. Era em Leipzig que fora construído o primeiro reactor nuclear alemão. Tratava-se de um reactor primitivo, concebido apenas como uma máquina experimental para recolher dados que permitissem a construção de um modelo funcional, onde a fissão teria lugar pela primeira vez, visto que esse não era o objectivo desse reactor “intermédio”. Em Maio de 1942, os técnicos do projecto consideraram estar já na posse dos elementos suficientes para avançar no projecto. O relatório chegou às mãos do OKW, que se convenceu que seria possível dispôr de uma bomba atómica no final do ano. Interrogados os cientistas nucleares sobre o peso que teria o engenho estes indicaram que seria um engenho grosseiro com cinco toneladas de peso e mais de 7.2 metros de comprimento. Para um engenho destas dimensões seria preciso um avião muito especial. Na época a Luftwaffe só possuía no seu inventário dois bombardeiros capazes de a transportar, o Focke Wulf Kondor e o Heinkel He 177, como o Kondor tinha sido concebido como um avião de reconhecimento e ataque marítimo não tinha grande capacidade de transporte de bombas, pelo que o He 177 era a única verdadeira opção. No Verão de 1942 foi seleccionado um desses aparelhos, que seria convertido na fábrica Heinkel de Praga, removendo-se as suas asas e aumentando o porão das bombas. O bombardeiro nunca abandonaria este estado, acabando por ser parcialmente destruído num bombardeamento, nunca havendo a necessária vontade para proceder à sua reparação. A asa voadora Horten Ho XVIII – que nunca sairia da fase de desenho – também estaria destinada a transportar uma ogiva nuclear, mas essa referência permanece por confirmar.
Nos começos de 1942 a liderança nazi decidiria que o esforço para construir uma única bomba era tão pesado que não seria possível produzi-la durante a guerra, pelo que o projecto recebeu uma baixa classificação de prioridade e se manteve descentralizado em vários institutos de investigação. Em Junho de 1942, o reactor de Leipzig explodia. Cumulativamente, diversos institutos envolvidos no projecto nuclear eram atingidos na grande série de bombardeamentos que os aliados lançaram sobre a Alemanha nesse mês. O projecto começava a sofrer os seus primeiros atrasos sérios. A inexistência de uma direcção central dificultava os esforços de recuperação e a baixa prioridade impedia qualquer aumento dos financiamentos. Para retardar ainda mais o andamento do projecto, a grande reestruturação que o projecto sofreu em 1942 implicaria a quase total paragem das pesquisas atómicas na Alemanha enquanto esta progredia. O avanço alemão na área nuclear tinha sido decididamente perdido. Mas o grande revez do projecto alemão ocorreu a 16 de Fevereiro de 1943 quando foram lançados seis paraquedistas sobre um lago gelado da Noruega. Estes resistentes tinham sido especialmente treinados para o bom sucesso da sua missão: Tratava-se de uma tentativa orquestrada pelos serviços secretos britânicos tendo em vista destruir a fábrica de água pesada de onde se iniciaria o processo de produção da bomba atómica alemã. A operação tinha recebido o nome de código Gunnerside e foi, dias mais tarde, reforçada com quatro outros resistentes da anterior Swallow, cujos objectivos, semelhantes, haviam sido frustados. Desta vez, os comandos conseguiram iludir a vigilância dos guardas alemães e fazer explodir a fábrica.O sucesso da missão foi ainda reforçado pelo facto de nenhum dos resistentes ter sido capturado: um deles, armado e fardado, chegou à Suécia neutral, os outros nove comandos permaneceram na Noruega, onde, escapando a diversas rusgas alemãs, conseguiram evitar a captura até ao fim da Guerra. Um outro golpe sério no programa de produção de água pesada foi dado a 16 de Novembro de 1943. Nesse dia de Inverno, 160 bombardeiros norte-americanos, descolando das suas bases na Grã-Bretanha, atacaram a central eléctrica e a fábrica de água pesada de Vermok. 
Vermok
Durante o ataque foram mortos vinte civis noruegueses que trabalhavam na fábrica. Esta não foi destruída, mas sofreu danos tão sérios na sua central de energia que os alemães foram levados a abandonar a fabricação de água pesada no local. Os estoques que até então tinham sido constituídos deveriam ser transportados até à Alemanha, essa informação chegou às mãos da resistência norueguesa que se apressou a passá-la até aos Serviços Secretos Britânicos. Começou então a planificação de uma operação que visava a destruição completa desses estoques durante o seu transporte. Esses planos foram executados a 20 de Fevereiro de 1944, quando o ferry que transportava todas as reservas existentes de água pesada através do lago Tinnsjo, a caminho da Alemanha, explodiu. Do incidente, executado pela resistência norueguesa e planeado a partir de Londres resultou a morte de 4 militares alemães e de 14 civis noruegueses tripulantes do navio. Apesar do preço pago em vidas inocentes, o plano alemão de produção de uma bomba atómica sofria então um duro golpe. O reduzido número de baixas alemãs deve-se a uma opção tomada deliberadamente, optando pela descrição no transporte com uma pequena escolta, em lugar de uma grande escolta que daria inevitavelmente nas vistas. De qualquer modo, o tranporte acabou mesmo por tornar-se conhecido dos aliados invertendo a suposta eficácia do método alemão. Assim se explica como um ferry que podia ter virado curso da guerra estava tão mal guardado. Mas a destruição do carregamento de água pesada norueguesa não terminou a produção da bomba atómica nazi. Os Aliados, com efeito, souberam pela captura de alguns documentos alemães em Estrasburgo, que a fábrica Auer de Oranienburg dedicava-se ao processamento do minério de Urânio. O bombardeamento da unidade foi logo considerado um objectivo prioritário e encetadas as diligências para o início dos bombardeamentos.
No início de 1944 existiam na Alemanha dez locais envolvidos no projecto atómico, a maioria em zonas submetidas a intensos bombardeamentos aliados. Em resposta, foi decidido concentrar o grosso da pesquisa nuclear nos arredores de Estugarda, uma cidade que não tinha alvos importantes, e que não tinha sido grandemente afectada pelos raids aliados. Foi assim que se escolheram os arredores da cidade de Haigerloch, um local entre duas altas montanhas, impossível de atacar através do ar. Nos finais de Fevereiro o reactor estava pronto – esperava-se – a produzir uma reacção atómica sustentada. Cubos de urânio suspendidos por fios foram colocados num contentor. Uma fonte de neutrons foi colocada no centro do reactor e a Água Pesada foi lentamente vasada para o contentor, enquanto a actividade dos neutrons era cuidadosamente medida. Contudo, a esperada reacção não teve lugar. Quando se estudava o que havia falhado, os aliados vencem o Reno e os soviéticos o Oder. O caos reina numa Alemanha já completamente derrotada, deixando os investigadores alemães completamente parados até ao dia 23 de Abril quando a região foi ocupada pela infantaria norte-americana. Pouco depois chegava uma unidade especial do exército americano que recolhia todos os cientistas, documentos e equipamento do projecto atómico e os transportava para o outro lado do Atlântico. Foi assim que a 15 de Março de 1945, poucos meses antes do final da guerra foi vibrado o golpe decisivo sobre os projectos nucleares da alemanha nazi. Bombardeiros americanos entraram em acção, sob pedido urgente do general Leslie R. Groves, o responsável máximo do “projecto Manhattan” (encarregue da produção da bomba atómica norte-americana). Mais de mil e trezentas toneladas de bombas explosivas e incendiárias foram lançadas sobre a fábrica de tratamento de Tório de Oranienburg. O sucesso foi quase completo, resultando na destruição total da parte emersa das instalações, o que resultou na paragem imediata do produção da bomba atómica alemã. Mas embora a capacidade produtiva de urânio enriquecido e de água pesada alemães tivesse sofrido um rude golpe, os aliados receavam que antes de consumada essa destruição os alemães tivessem podido acumular materias-primas em número suficiente que lhes tivesse permitido construir pelo menos uma bomba atómica.


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Diagrama do reactor experimental de Haigerloch
Esses receios, a 12 de Abril de 1945, vieram a revelar-se infundados. Com efeito, nesse dia, em Stadtlim, perto de Erfurt, os soldados americanos apoderaram-se de uma das duas baterias de água pesada alemãs cuja existência era conhecida. Pelo seu estado ainda incipiente e artesanal era evidente que não haveria uma bomba atómica alemã antes do termo do conflito. Em Abril de 1945 não restavam à Alemanha fábricas ou nenhuns dos recursos fabulosos necessários à produção de plutónio, aliás, mesmo que os possuísse, onde se poderiam realizar as experiências? Quase todo o território do Reich havia sido já ocupado. Com o aproximar do fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados, que conheciam com perfeição os locais onde, na Alemanha, se investigava a desintegração do núcleo atómico, procuravam ganhar para cada um deles, o manancial de conhecimentos atómicos reunidos pelos cientistas alemães. É assim que encontramos a declaração feita por Churchill em 18 de Abril de 1945 de que se devia obter o “controlo sobre a região de Estugarda antes de esta ser ocupada pelos franceses”. Era nesta região que se encontravam as principais instalações nucleares alemães, as Tube Alloys, na sua própria expressão, continuando: “e seria bom, dado o secretismo que rodeia a matéria, que nós nos apoderássemos delas”. Mas o maior e mais organizado esforço de “saque” ao projecto nuclear alemão partiu dos EUA, que mesmo antes do fim do conflito criaram a missão Alsos com o único objectivo de conduzir a recolha de informação e material sobre a pesquisa atómica na Alemanha e nos países ocupados.
Agentes da OSS (futura CIA) desmantelam o pro-reator nuclear  em Haigerloch (provavelmente maio de 1945).

A Energia Nuclear e a Segunda Guerra Mundial - a Bomba Atômica Alemã

O periodo entre guerras, apesar de algumas das fundações da física quântica já estarem estabelecidas, foi extremamente produtivo para a Físicana Alemanha, tanto pelo reconhecimento dos trabalhos de Planck, Einstein e Bohr quanto pelas novas idéias que eliminaram alguns problemas encontrados. Entre 1918 e 1939 De Broglie, Dirac, Pauli e Schrödinger produziram os trabalhos que iriam trazer à realidade o que o Emílio Segre chama de "verdadeira mecânica quântica".
Planck foi agraciado com o Nobel em 1918. Os físicos já tinham visto os trabalhos de Einstein, Bohr e Rutherford. A idéia dos quanta de energia já era trabalhada com certa facilidade na compreensão do corpo negro. O efeito foto-elétrico tinha respondido com o modelo de que a luz era um pacote de energia concentrada num espaço pequeno, que na verdade a radiação eletromagnética é composta por pacotes discretos de energia, e isso deixava a questão das propriedades ondulatórias da luz sem resposta. O átomo semiclássico com órbitas estacionárias proposto por Bohr, apesar de seu problema com relação aos postulados utilizados era um sucesso para explicar o espectro do hidrogênio.
Assim que Hitler assumir o poder, toda a massa de cientistas judeus foi dispensada dos seus trabalhos relacionados com pesquisa e ensino. Por causa dessa medida a Alemanha perdeu imediatamente 15 prêmios Nobel de várias áreas, incluindo Einstein e Schröedinger. Estima-se que 25% da força de pesquisa alemã foi perdida com essa medida.
A fúria nazista era totalmente cega. Fritz Haber, o químico que tanto ajudou a Alemanha na primeira guerra, e tinha até mesmo renegado o Judaísmo, adotando o Cristianismo, foi expulso de sua cadeira no Instituto Kaiser Wilhelm. Ele escreveu uma carta repudiando a atitude de Hitler e dizendo que sempre se sentiu tão alemão quanto qualquer outro. Com certeza o regime sentiu muita falta de Haber durante o avanço aliado. Lise Mitner foi outra pesquisadora judia expulsa. Ela se mostrou essencial no que viria a ser a descoberta da fissão do urânio 285.
No entanto três físicos arianos, Phillip Lenard, Johannes Stark e Pascual Jordan, engrossaramas fileiras nazistas, e não simplesmente continuando suas pesquisas, mas participando ativamente do regime.
Lenard foi laureado com o Nobel em 1905 pelos seus trabalhos com raios catódicos (tubos que podiam incidir feixes em objetos externos). Ele parece ter começado a coletar inimigos bem cedo. Röntgen era o seu maior desafeto. Ele é reconhecido como o descobridor dos raios-X, uma descoberta que Lenard julgava sua. Ele tinha ajudado Röntgen a obter tubos sensíveis o suficiente para a criação dos raios. Seu segundo desafeto era o físico inglês JJ Thomson. Segundo Lenard, Thomson explorou seu trabalho no efeito fotoelétrico sem sua permissão. Ele chegou a denunciar Thomson do seu discurso de aceitação do Nobel! Por essa disputa com Thomson, Lenard nutria um sentimento de ódio não só pelos judeus, mas também pela Inglaterra, expressa inúmeras vezes. Em 22 seu único filho morreu como resultado do tempo de mal nutrição que passou durante a guerra.
Johannes Stark foi outro prêmio Nobel a apoiar o regime nazista. Seu Nobel veio em razão da sua descoberta do efeito Doppler em uma radiação específica e do efeito de campos elétricos nas linhas espectrais. Seu problema com os judeus começou quando Arnold Sommerfeld, segundo ele um membro do círculo Judeu e pró-Semita, conseguiu que um de seus alunos preferidos assumisse uma cadeira em Götingen no lugar dele próprio.
Tanto Stark quanto Lenard pareciam nutrir uma admiração por Einstein no início de suas carreiras. Stark chegou inclusive a se corresponder com Einstein para discutir a idéia da quantização da luz. Lenard cogitou chamar Einstein para assumir uma cadeira em física teórica em Heidelberg.
Entretanto, à medida que o anti-semitismo foi se difundindo pela população ambos começaram a desenvolver a idéia de "física judia". A idéia vinha como uma resposta às interpretações filosóficas que foram atribuídas à teoria especial da relatividade. Paul Dirac chegou a dizer que a teoria era "uma fuga da guerra... Relatividade era um assunto sobre o qual todos se sentiam capazes de comentar de uma maneira filosófica".
Essa idéia era especialmente perigosa para o sistema nazista. Como um sistema baseado no ódio racial podia aceitar qualquer relativização moral? A "Higiene Racial" tinha que ser feita. Ou isso acontecia ou o povo alemão iria sucumbir e ser um eterno escravo do capital judeu e do tratado de Versailles.
Em 1920, em Berlin, um seminário popular foi organizado com o único propósito de atacar a relatividade. Einstein mostrou seu lado polemista e respondeu à altura, chegando inclusive a atacar um tal Mr Weyland que participou do seminário dizendo que ele não parecia ser especialista em nada:
"ele é um doutor? Engenheiro? Político? Eu não conseguir descobrir".
O ataque foi suficiente para inflamar o ódio imortal de Lenard e Stark. Como ambos tinham uma formação fortemente experimental, começaram a relacionar a física teórica com os judeus e especial com a figura de Einstein. Stark destilou seu veneno contra Einstein no seu livro "A Crise Contemporânea na Física Alemã" no qual chegou a um passo de anti-semitismo declarado. Depois da tentativa fracassada de golpe de Hitler, Lenard e Stark publicaram juntamente "O Espírito e a Ciência de Hitler" onde comparavam o futuro Fürher aos grandes gigantes da ciência como Galileu, Kepler, Newton e Faraday. No governo de Hitler, Lenard assumiu o posto da presidência da Sociedade Kaiser Wilhelm e Stark a Fundação de Emergência, ambos órgãos de pesquisa que desfrutavam de fundos suficientes para as pesquisas, ao contrário dos vários outros centros.
Pascual Jordan foi um dos poucos físicos teóricos a adotar o nazismo. Ele tinha participado da criação dos operadores de criação e aniquilação de partículas. Juntamente com Heisenberg e Born participou do desenvolvimento da mecânica de matrizes embora não tinha recebido o Nobel.
Sendo ele próprio um entusiasta de Hitler, dizia que o Nazismo era verdadeiro da mesma forma que a segunda lei da termodinâmica era verdade. Segundo ele: "a transformação política já completada em tantos estados europeus, na forma da troca de formas parlamentaristas de governo por métodos autoritários e ditatoriais não é uma mera modernização do aparato do governo; mas sim a erupção de uma reconstrução revolucionária de todo o nosso pensamento, valores e ações, gradualmente abrangendo todas as áreas da vida e da cultura". Segundo ele, o nazismo iria afundar o Iluminismo, tirando o foco do indivíduo.
Werner Heisenberg constitui a maior incógnita entre todos os pesquisadores alemães de destaque. Heisenberg recebeu o prêmio Nobel de 1932 segundo a própria academia "pela criação da mecânica quântica". O seu trabalho com a mecânica não comutativa de matrizes mudou pra sempre a história da Física. Sem dúvida Heisenberg e Schröedinger eram os maiores expoentes da física alemã na época da guerra.
Em Agosto de 1934, logo depois da morte Hindemburg, Hitler anunciou a sua intenção de combinar as funções de chanceler e a presidência. Stark organizou um manifesto de lealdade a Hitler e tentou coletar assinaturas dos prêmios Nobel da Alemanha. Heisenberg, Laue, Planck e Nerst recusaram dizendo que ciência e política não têm nada a ver um com o outro.
O que pode parecer uma atitude positiva, na verdade mostra uma das piores idéias nutridas por qualquer ser social. Se ciência não tem a ver com política, fica difícil dizer o que tem. No caso da bomba atômica nazista é fácil ver a conexão, mas o projeto ainda não tinha sido iniciado. Heisenberg através desse acontecimento está dizendo que sua opção de ficar na Alemanha foi feita não porque era nazista, mas porque era um ser não-político, acreditando inocente ou indolentemente que tal ser existe. Com o passar do tempo o seu nacionalismo fica claro. Essa parece ser a sua única característica política clara, mas veja que ele não entende essa característica com política mas sim como uma qualidade moral. Aliás, essa foi uma herança preciosa para os nazistas. Enquanto o cristianismo alemão tinha virado um simples conjunto de regras morais, a primeira guerra contribuiu para a modificação da virtude no patriotismo, deturpando e explorando o sentimento dos alemães pela sua terra natal. Heisenberg,  não via a Alemanha como um país como outro
qualquer, mas sim como o "seu" país, pelo qual deveria se sacrificar.
Outra característica de Heisenberg era a sua capacidade de se imergir no trabalho, esquecendo das conseqüências do mesmo. Em uma carta escrita à sua mãe em 34, Heisenberg diz que "o mundo lá fora está realmente feio, mas o trabalho é lindo". Ele estava totalmente imerso nas suas pesquisas e aparentemente queria ficar assim.
Heisenberg nutria uma declarada admiração por Einstein e pelo seu trabalho. Como se isso não fosse suficiente, o seu trabalho sobre a mecânica quântica cheirava tanto a Stark quanto a Lenard como "física judia" e foi exatamente assim que eles o classificaram. Mais tarde o chamaram de "judeu branco" e "amigo de Einstein". Por volta de 1935, Heisenberg já sentia claramente o quão perigosa era a sua posição. E resolveu se defender. Através de sua mãe, Heisenberg conseguiu chegar a Heinrich Himmler, comandante da SS. Himmler acabou iniciando um processo de investigação aonde chegou a interrogar Heisenberg nos porões do quartel general da SS. Em 1939 Himmler completou as investigações e escreveu para o Ministro da Educação dizendo que Heisenberg era um acadêmico não-político e incapaz de causar problemas. Segundo Himmler, para Heisenberg "a física teórica era simplesmente uma hipótese sobre o funcionamento dos experimentos". Com o fim da investigação, Heisenberg voltou às suas pesquisas.
Enquanto isso acontecia, Enrico Fermi desenvolvia suas pesquisas em transmutação bombardeando vários materiais com nêutrons. Um deles, entretanto, o urânio, tinha um subproduto que não podia ser entendido pelas idéias iniciais. Fermi estava lidando com a fissão nuclear. Ida Noddack sugeriu em 34 que o átomo de urânio estaria sofrendo uma divisão, mas ao falar a sua idéia para Otto Hahn ele disse que não poderia comentar o assunto em suas palestras, pois não queria que ela parecesse ridícula. Foi outra mulher, a judia Lise Mitner quem conseguiu relacionar os resultados experimentais com a fórmula E=mc2 de Einstein. O núcleo do átomo do urânio 235 era instável devido à quantidade de cargas positivas presentes no núcleo. Com a colisão de um nêutron o átomo se partia em dois. Nesse processo uma quantidade incrível de energia era libera e só não tinha sido notada porque a amostra utilizada por Fermi não era grande.
Além de energia, o processo podia liberar outros nêutrons. Essa idéia tinha ocorrido a outro cientista judeu, o húngaro Leo Szilard, em 1933, mesmo ano em que ele conseguiu fugir da Alemanha. Ao chegar na Inglaterra, Szilard tentou explicar a idéia de reação em cadeia mas ninguém o ouviu. Em 1934 ele aplicou e conseguiu obter a patente para a fissão nuclear em cadeia. Pouco depois ele acabou cedendo a patente ao governo inglês depois que entendeu o potencial mortal de tal reação.
Até então não se sabia se o urânio poderia produzir tal reação, tudo dependeria de quantos nêutrons são liberados quando ocorresse a fissão. Se pelo menor dois deles fossem produzidos, a reação em cadeia poderia ocorrer.
Preocupado com o assunto, Szilard escreveu para Fermi e para o físico francês Joliot-Curie que eram os líderes dos dois principais grupos de estudo experimental sobre o assunto. Fermi concordou e Joliot-Curie não se comprometeu. Em 18 de Março de 1939 um artigo de Joliot-Curie foi publicado na revista Nature. Nesse artigo ele revelava que em média 2,42 nêutrons eram produzidos a cada fissão. Joliot-Curie disse depois que esperava uma segunda carta de Szilard que acabou nunca chegando, sendo que a primeira carta já era muito clara.
Lendo o artigo de Joliot-Curie, o físico-químico austríaco Paul Harteck teve a mesma idéia que Szilard. Ele era pesquisador na Universidade de Hamburgo e tinha sofrido, assim como todos os outros cientistas, um duro corte de verbas para as suas pesquisas. Sua solução não demorou muito.
Harteck decidiu submeter à Ordem Alemã de Armas uma carta descrevendo a idéia da bomba.
O que levaria um físico-químico austríaco que se professava não-polítco e não era parte do Partido Nazista a escrever a maquina de guerra alemã? Mesmo após a guerra, Harteck disse que seu único motivo era puramente oportunístico: "naqueles dias na Alemanha nós não tínhamos nenhum apoio para a pesquisa pura... Então tivemos que ir a uma onde se podia conseguir dinheiro. Eu era realista sobre essas coisas. O Departamento da Guerra tinha o dinheiro então fui a até eles"!!!
Adicionando a tudo isso, o The New York Time lançou uma matéria estarrecedora em 30 de Abril de 1939 falando de todas as possibilidades contempladas para a bomba atômica. A atenção alemã foi chamada.
Em 16 de Setembro de 1939 foi dado o inicio ao projeto de bomba atômica nazista quando alguns físicos da Ordem de Armas se reuniram em Berlim. Dez dias depois uma segunda reunião foi realizada, dessa vez contando com a presença de Heisenberg, Hans Geiger, Paul Harteck e Otto Hahn.

Porém o projeto da Bomba Atômica Alemã apresentou várias dificuldades entre elas:


- Massa crítica
A massa crítica para uma reação em cadeia é o número de átomos necessários para que os nêutrons produzidos pela reação inicial não saiam do corpo antes de colidirem com outro átomo. Se um átomo bombardeado está rodeado de poucos átomos, é provável que os nêutrons produzidos na fissão venham a escapar da amostra sem causar outra fissão. Com átomos suficientes é possível produzir a reação em cadeia.
A discussão sobre a quantidade de urânio 235 necessária para uma reação em cadeia foi extensa. Bohr chegou a dizer que se precisaria de que uma quantidade tal que não era possível utilizar a bomba por avião, ou seja, teria que transportada por um navio. Entretanto em junho de 42 Heisenberg fez uma palestra sobre os avanços das pesquisas na "máquina de urânio". Quando foi questionado sobre o mínimo de urânio necessário para a reação em cadeia, ele respondeu que era algo como uma bola de futebol, uma quantidade bem próxima à que foi utilizada em Hiroshima, o que leva a acreditar que Heisenberg tinha uma boa idéia sobre esse problema.

- Enriquecimento
Na natureza, o urânio é encontrado em dois isótopos basicamente, o 238 e o 235. O urânio 235 é encontrado em uma porcentagem um pouco menor que 1%. Era necessário separar o urânio 235 do restante. A idéia básica era a centrifugação gasosa repetida utilizando a fórmula de separação de Clusius.
A possibilidade da utilização do plutônio como combustível foi atrapalhada pelo fato de que o cientista responsável pela pesquisa, Fritz Houtermass, estava tentando atrasar o processo de construção da bomba.

- Moderador
A fusão do urânio 235 só acontecia, até onde tinha se observado, com nêutrons lentos, ou seja, com nêutrons com pouca energia, mas quando da fissão os nêutrons emitidos tinham muita energia. Era necessária a diminuição da energia dos mesmos e a idéia de Heisenberg era fazer com que os nêutrons colidissem com outras partículas que não seriam afetadas pela colisão, e o material perfeito para isso era a água pesada, que era um material difícil de ser produzido.
Na verdade essa pesquisa foi um atraso porque o ideal era que os alemães tivessem aprendido a utilizar os nêutrons rápidos.

- Queimar o mundo
Era uma questão recorrente o fato de alguns cientistas temerem a possibilidade de que uma ver iniciada a fissão em cadeia, ela se espalharia pela matéria comum, tamanha a energia liberada. Por incrível que possa parecer, esse medo também era compartilhado pelo Führer. Heisenberg pensava ter provado a improbabilidade desse processo, mas a simples possibilidade de se desenvolver todo projeto e ao chegar-se ao fim se descobrir que a arma não pode ser utilizada não podia ser deixada fora da equação. É dito que Fermi irritou bastante os generais americanos do projeto Manhattan quando eles souberam que Fermi estava conduzindo uma aposta entre os seus companheiros. A aposta era se a bomba quando fosse detonada ia queimar o mundo inteiro ou "só" o estado do Novo México.

- Recursos, experiência e Heisenberg
O projeto Manhattan custou algo em torno de 2 ou 3 bilhões de dólares e chegou a envolver150 mil  pessoas. A área construída para o projeto era o equivalente a três cidades pequenas. Durante todo o projeto alemão nunca o número de cientistas envolvidos ultrapassou 100. Quando em determinado momento Albert Speers, Ministro de Armamentos e Munições, ofereceu 2 milhões de marcos a serem disponibilizados ao projeto, Heisenberg recusou dizendo que o dinheiro não poderia ser utilizado no presente.
Os motivos para Heisenberg ter recusado os recursos ainda são objeto de discussão. Ele nunca tinha desenvolvido um único projeto experimental, e isso era observado por seus colegas. Harteck chegou a dizer depois da guerra que "foi um péssimo julgamento, é quase inacreditável". Um exemplo da sua insegurança foi que quando citou o fato de a Alemanha não ter nenhum ciclotron, enquanto os EUA tinham sete, Speers sugeriu fazer um maior do que qualquer ciclotron americano. Heisenberg respondeu dizendo que a Alemanha não tinha experiência na construção desses equipamentos, logo tinham que começar com um pequeno.
Além disso, a responsabilidade de aceitar qualquer recurso com certeza recairia sobre ele se o projeto viesse a fracassar. Seu histórico já era contestado, um fracasso em um projeto com uma alocação grande de recursos poderia trazer desconfianças sérias sobre o seu comprometimento com o regime. 

- O contra-ataque
Os aliados iniciaram o bombardeio constante de Berlim em 1943. Os russos estavam avançando e logo a Polônia seria reconquistada. A base industrial do Reich estava ruindo e a vitória dos aliado era discutida abertamente. Vários cientistas mudaram suas famílias das cidades envolvidas com a pesquisa temendo os bombardeios. Logo a única usina de água pesada em poder dos alemães seria conquistada. No verão de 43 Speers já teria desistido de obter a bomba.

- Alsos
O avanço aliado se consolidou e o bombardeiro de Berlin se tornou feroz. Os aliados formaram uma equipe de captura dos cientistas alemães. Sob da coordenação do holandês Samuel Goudsmit o grupo adotou o nome Alsos. Logo depois da invasão da Normandia a primeira missão do grupo foi o laboratório de Joliot-Curie em Paris.
Em Janeiro de 1945 vários físicos do projeto atômico alemão fugiram ou abandonaram os laboratórios do projeto. Heisenberg fugiu para a sua casa em Urfeld viajando 100 milhas de bicicleta. A missão Alsos o capturou no dia 3 de maio.




Poderiam os alemães terem chegado à bomba antes do fim da guerra?
É muito difícil responder a tal pergunta sem saber quais variáveis podiam ser alteradas.
Segundo Cornwell, os alemães podiam chegar à bomba em 47, mas é difícil pensar num ambiente econômico que sustentasse a guerra esse tempo todo. Uma alocação maior de recursos e pessoas para o projeto da bomba era difícil, tanto pelo preconceito de Sparks com relação à física nuclear como pelo fato de que a Alemanha precisava de gente desenvolvendo os seus mísseis V, os aviões deturbina, o radar e etc.
Heisenberg como líder com certeza foi um empecilho ao programa. Ele não foi receptivo aos os aliados e não parecia interessado em sabotar o governo alemão. Chegou inclusive a visitar Hans Frank, o homem responsável pela morte de pelo menos 14 mil judeus nos guetos da Polônia depois de saber das atrocidades. Em determinada ocasião, Heisenberg se encontrou com Bohr e comentou sobre o projeto da bomba. Esse encontro é motivo de discussão até hoje assim como não se sabe se ele foi um empecilho intencional ou não.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Fritz Strassmann

1902 - 1980


Nascido em Boppard na Alemanha em 22 e fevereiro de 1902. Estudou em Hanôver na Universidade Técnica e tornou-se doutor em 1929, onde recebeu seu Ph.D.
Strassmann ajudou a desenvolver o método de datação radioativa usado em geocronologia.

Juntamente com Lise Meitner e Otto Hahn, descobriu a fissão nuclear em 1938. após essa descoberta, Lise teve que abandonar a Alemanha porque era judia. Por este motivo, o grupo de cientistas desmembrou-se.
Trabalhou também com seu sobrinho Otto Robert Frish.

Com Otto produziu bário através do bombardeio de urânio com nêutrons.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Strassmann e Hahn continuaram a estudar a física nuclear.
Com o fim da guerra, Strassmann tornou-se professor de Química Inorgânica e Química Nuclear na Universidade de Mainz.
Foi diretor do Intituto de Química na Universidade de Mainz e ganhou em 1966 o Prêmio Enrico Fermi.

Foi considerado, no meio científico, injustiçado pela academia sueca porque o Prêmio Nobel de Química de 1944 foi apenas para Otto Hahn, deixando de lado Otto Frish, Lise Meitner e ele.

Faleceu em Mainz, na Alemanha Ocidental no dia 22 de abril de 1980.

Otto Hahn

 1879 -  1968 


Nasceu em Frankfurt, Alemanha, estudando química em Marburg e Munique. Após obter o seu PhD em 1901 trabalhou na Universidade de Marburg, posteriormente em Londres, Montreal e em Berlim.
Junto com Lise Meitner e Otto von Baeyer desenvolveu a técnica de medir o decaimento beta do espectro dos isótopos radiativos, cujo feito lhe assegurou o posto de professor no recém fundado Kaiser-Wilhelm-Instituto de Química de Berlim, em 1912.
Em 1818, juntamente com Meitner descobriu o elemento protactínio. Quando Meitner fugiu da Alemanha nazista em 1938, continou seu trabalho com Fritz Straßmann na elucidação dos produtos resultantes do bombardeamento do urânio com neutrons térmicos. Comunicou os resultados obtidos à Meitner que, com a colaboração do seu sobrinho Otto Robert Frisch, interpretou corretamente as evidências para o desenvolvimento da fissão nuclear.
Uma vez que a idéia da fissão foi aceita, Hahn continuou suas experiências demonstrando a enorme quantidade de energia que a fissão nuclear com neutrons produz, útil para a fabricação de armas nucleares.
Durante a Segunda Guerra Mundial Hahn foi um participante do programa alemão para o desenvolvimento de uma arma nuclear sob a liderança de Werner Heisenberg. Após a guerra, em 1944 , Hahn foi laureado com o prêmio Nobel de química, porém no momento da entrega do prêmio o apresentador anunciou: "Professor Hahn nos informou que lamentavelmente está incapacitado para comparecer a esta cerimônia". No pós-guerra Hahn tornou-se um combatente popular contra a utilização das armas nucleares.
Juntamente com Fritz Straßmann e Lise Meitner , Hahn foi o descobridor da fissão nuclear, processo radiativo responsável para a fabricação de bombas atômicas e usinas nucleares para a geração de energia termo-elétrica.
Em épocas diferentes, propostas surgiram para nomear os elementos 105 e 108 de Hahnium em sua homenagem, porém nenhuma proposta foi aprovada.

Lise Meitner

(1878-1968)


Foi a terceira de oito filhos de uma família judaica. Entrou na Universidade de Viena em 1901, onde foi aluna de Ludwig Boltzmann. Após o doutoramento partiu para Berlim, em 1907, para estudar com Max Planck e o químico Otto Hahn. Trabalhou com Hahn durante trinta anos, cada um dirigindo um departamento do Instituto Kaiser Wilhelm de Berlim. Hahn e Meitner colaboraram entre si no estudo da radioatividade, ela com seu conhecimento de física e ele com com seu conhecimento de química.
Em 1918, descobriram o elemento protactínio. Em 1923, Lise descobriu a transição não radioativa que passou a ser conhecida por efeito Auger, em honra a Pierre Auger, um cientista francês que descobrira independentemente o efeito, dois anos mais tarde.
Quando a Áustria foi anexada pela Alemanha em 1938, Meitner se viu forçada a fugir da Alemanha para a Suécia (via Países Baixos e Dinamarca), onde continuou seu trabalho no Instituto Manne Siegbahn em Estocolmo, porém com poucos recursos em parte devido ao preconceito de Siegbahn contra mulheres na ciência. Hahn e Straßmann deram continuidade ao trabalho iniciado anteriormente com Meitner. Hahn escrevia para Meitner descrevendo os resultados, e mais tarde encontraram-se clandestinamente em Copenhague, em novembro, para planejar uma nova rodada de experiências. As experiências químicas da evidência da fissão nuclear foram desenvolvidas no laboratório de Hahn em Berlim e publicadas em janeiro de 1939. Em fevereito do mesmo ano, Meitner publicou através de uma carta à Revista Nature, junto com seu sobrinho Otto Frisch, quando esteve visitando-o na Dinamarca, a explicação física sobre o processo que denominou de fissão nuclear. Meitner provou que a divisão do átomo de Urânio (em átomos de Bário e Criptônio) libera energia, que por sua vez causa fissão em mais átomos liberando neutrões e assim sucessivamente, dando origem a uma série de fissões nucleares com liberação contínua de energia, num processo denominado reação em cadeia. Meitner reconheceu o potencial explosivo desse processo. Imediatamente esses resultados foram confirmados no mundo inteiro. Tal descoberta fez com que outros cientistas se juntassem para convencer Albert Einstein a escrever uma carta ao Presidente Franklin D. Roosevelt, alertando-o quanto aos perigos do Projeto Manhattan.
Em 1944, Hahn recebeu o Prêmio Nobel de Química por sua pesquisa em fissão nuclear. Meitner foi ignorada pelo comitê (Siegmann fazia parte do comitê), principalmente porque Hanh não mencionou sua participaçao na pesquisa desde que ela deixou a Alemanha; muito pelo contrário, ele afirmou que seus experimentos químicos foram unicamente responsáveis por tal descoberta. Ajudantes de Meitner exigiram que fosse reconhecido que ela foi a primeira a provar através de seus cálculos a fissão nuclear, contudo nao foi possível fornecer tal evidência para ajudá-la.
O erro cometido pelo instituto Nobel nunca foi reconhecido, mas parcialmente retificado em 1966, quando Hahn, Meitner e Fritz Straßmann receberam o Prêmio Enrico Fermi.
Em visita aos EUA em 1946, Meitner foi tratada como celebridade pela imprensa estado-unidense, como uma pessoa que "deixou a Alemanha com a bomba na bolsa". Meitner foi eleita a "Mulher do Ano" pelo National Women’s Press Club (EUA) em 1946, e em 1949 recebeu a medalha Max Planck da Sociedade Alemã de Físicos.
O elemento 109, o mais pesado do universo, foi nomeado "meitnério" (Mt) em sua homenagem pela IUPAC. Muitas pessoas consideram Lise Meitner a "mulher mais importante na ciência do século XX".

terça-feira, 19 de abril de 2011

Enrico Fermi


(1901 - 1954)

Nascido em Roma, Itália. Seu pai era Alberto Fermi, inspetor-chefe do Ministério das Comunicações da Itália, e sua mãe era Ida de Gattis, professora de uma escola primária. Desde jovem Fermi gostava de estudar física e matemática, interesses também de seu irmão mais velho, Giulio. Quando Giulio morreu inesperadamente de um abcesso na garganta em 1915, Enrico ficou emocionalmente arrasado, e se refugiou em estudos científicos para se distrair. De acordo com ele mesmo, todos os dias ele caminhava em frente ao hospital onde Giulio morreu, até que ele se acostumou com a dor. Numa banca do Campo de' Fiori, Fermi comprou e leu o livro intitulado Elementorum physicae mathematicae (900 páginas), escrito em latim pelo padre Andrea Caraffa, professor do Collegio Romano, que abordava matemática, mecânica clássica, astronomia, óptica e acústica. Mais tarde, Fermi e seu melhor amigo, outro estudante inclinado para a ciência, chamado Enrico Persico, empenharam-se em projetos científicos, tais como, construir giroscópios, e medir o campo magnético da Terra. O interesse de Fermi pela física foi ainda mais incentivado quando um amigo de seu pai, o engenheiro Adolfo Amidei, lhe deu vários livros sobre física e matemática, que Fermi leu e assimilou rapidamente.
Em 1918, Fermi matriculou-se na "Escola Normal Superior"  em Pisa, onde mais tarde recebeu seu diploma de graduação e de doutorado. Para entrar na prestigiada instituição, havia um exame para os candidatos, que incluía um ensaio. Por seu ensaio sobre o tema dado, "Características do som", Fermi, com 17 anos de idade, escolheu derivar e resolver a transformada de Fourier baseada na equação diferencial parcial para as ondas em uma corda. O examinador, professor Giulio Pittato, entrevistou Fermi e concluiu que seu ensaio teria sido digno de louvor mesmo para um doutorado. Enrico Fermi ficou com o primeiro lugar na classificação do exame de entrada. Durante os anos na Scuola Normale Superiore, Fermi formou equipe com um colega estudante Franco Rasetti, que mais tarde, se tornou o mais próximo amigo e colaborador de Fermi.
Além de freqüentar as aulas, Enrico Fermi encontrou tempo para trabalhar em suas atividades extracurriculares, particularmente com a ajuda de seu amigo Enrico Persico, que permaneceu em Roma para estudar em uma universidade. Entre 1919 e 1923 Fermi estudou relatividade geral, mecânica quântica e física atômica.
Seus conhecimentos de física quântica atingiram um nível tão elevado que o chefe do Instituto de Física, professor Luigi Puccianti, pediu-lhe para organizar seminários sobre o assunto. Durante esse tempo ele aprendeu cálculo tensorial, um instrumento matemático inventado por Gregorio Ricci-Curbastro e Tullio Levi-Civita, e necessário para demonstrar os princípios da relatividade geral. Em 1921, seu terceiro ano na universidade, ele publicou seus primeiros trabalhos científicos no periódico italiano Il Nuovo Cimento. O primeiro foi intitulado: "Sobre a dinâmica de um rígido sistema de cargas elétricas em condições transientes" ; o segundo: "Sobre a eletrostática de um campo gravitacional uniforme de cargas eletromagnéticas e sobre o peso de cargas eletromagnéticas". À primeira vista, a primeira publicação parecia apontar uma contradição entre a teoria eletrodinâmica e a relativística em relação ao cálculo das massas eletromagnéticas. Após um ano, com um trabalho intitulado "Correção da discrepância entre a teoria eletrodinâmica e um relativista de cargas eletromagnéticas. Inércia eo peso da electricidade, Enrico Fermi mostrou que seu artigo estava correto. Esta publicação teve tanto sucesso que foi traduzida para o alemão e publicada no famoso periódico científico alemão "Physikalische Zeitschrift".
Em 1922, ele publicou seu importante trabalho científico no periódico italiano I Rendiconti dell'Accademia dei Lincei intitulado "Sobre os fenômenos que ocorrem nas proximidades de uma linha de tempo". E em 1922, Fermi recebeu seu diploma de graduação na Scuola Normale Superiore.
O orientador de doutorado de Fermi foi Luigi Puccianti. Em 1924, Fermi passou um semestre em Göttingen, e então ficou por alguns meses em Leiden com Paul Ehrenfest.
De janeiro de 1925 até o outono de 1926, ele ficou na Universidade de Florença. Neste período, ele escreveu seu trabalho sobre a estatística de Fermi-Dirac.
Com 24 anos, Fermi tornou-se professor da Universidade de Roma, Orso Mario Corbino ajudou Fermi a selecionar sua equipe, que logo foi ingressada por mentes notáveis como Edoardo Amaldi, Bruno Pontecorvo, Franco Rasetti e Emilio Segrè. Para os estudos teóricos apenas, Ettore Majorana também participou do que logo foi apelidado de "o Grupo da rua Panisperna" (em relação ao nome da rua em que o instituto tinha seus laboratórios).
O grupo continuou com os experimentos que vieram a ficar famosos, no entanto, o grupo se desmantelou, em 1933 Rasetti deixou a Itália e foi para o Canadá, Pontecorvo foi para a França, e Segrè partiu para lecionar em Palermo.
Durante seu tempo em Roma, Fermi e seu grupo fizeram importantes contribuições a muitos aspectos práticos e teóricos da física. Essas incluem a teoria do decaimento beta, com a inclusão do postulado do neutrino em 1930 por Wolfgang Pauli, e a descoberta dos nêutrons lentos, que foi fundamental para o funcionamento dos reatores nucleares. Seu grupo sistematicamente bombardeou elementos com nêutrons lentos, e durante seus experimentos com urânio, por pouco não observaram fissão nuclear. Naquele tempo, a cisão era tida como improvável ou mesmo impossível, principalmente em campos teóricos. Enquanto as pessoas esperavam que elementos com maior número atômico fossem formados pelo bombardeamento de nêutrons de elementos mais leves, ninguém esperava que os nêutrons tivessem energia suficiente para realmente fragmentar um átomo mais pesado em dois elementos leves. Porém, a química Ida Noddack criticou o trabalho de Fermi e sugeriu que alguns de seus experimentos poderiam ter produzido elementos mais leves. Naquele tempo, Fermi descartou essa possibilidade.
Fermi era bem conhecido por sua simplicidade na solução de problemas. Suas aptidões de formidável cientista, combinando física nuclear teórica e aplicada, foram amplamente reconhecidas. Ele influenciou muitos físicos que trabalharam com ele, como Hans Bethe, que passou dois semestres trabalhando com Fermi no início da década de 1930.
Quando Fermi apresentou o seu famoso texto sobre o decaimento beta a prestigiada revista Nature, o editor da revista o recusou porque "ele continha especulações que estavam muito afastadas da realidade". Assim, Fermi viu a teoria ser publicada em italiano e em alemão antes de ela ser publicada em inglês. No dia 16 de janeiro de 1939, a Nature finalmente publicou o relatório de Fermi sobre o decaimento beta.
Em 1938, Fermi, com 37 anos, recebeu o prêmio Nobel de Física por suas "demonstrações da existência de novos elementos radioativos produzidos pela irradiação de nêutrons, e por sua descoberta relacionada de reações nucleares provocadas por nêutrons lentos".
Depois que Fermi recebeu o Prêmio Nobel em Estocolmo, ele, sua mulher Laura, e seus filhos emigraram para Nova Iorque. Isso foi principalmente por causa das leis anti-Semitas promulgadas pelo regime fascista de Benito Mussolini que ameaçavam Laura, que era judia. Além disso, as novas leis colocaram a maior parte dos assistentes de pesquisa de Fermi fora de trabalho.
Logo após sua chegada em Nova Iorque, Fermi começou a trabalhar na Universidade de Columbia, onde coordenou a contrução da sua pilha atômica (1942), o primeiro reator nuclear, produzindo pela primeira vez, uma reação nuclear em cadeia, que controlou por meio da absorção em blocos de carvão empilhados.
Fermi se mudou para o Laboratório Nacional de Los Alamos, em etapas posteriores do Projeto Manhattan, para servir de consultor geral. Ele estava sentado na sala de controle do Reator B de Hanford quando ele ficou crítico pela primeira vez, em 1944. Seu amplo conhecimento de muitos campos da física foi útil na resolução de problemas que eram de uma natureza interdisciplinar.
Ele tornou-se um cidadão naturalizado dos Estados Unidos da América em 1944.

Em seus últimos anos, Fermi fez trabalhos importantes em física de partículas, especialmente a relacionada com mésons pi, e múons. Ele também era conhecido por ser um professor inspirador na Universidade de Chicago, e era conhecido por sua atenção aos detalhes, simplicidade e preparação cuidadosa das aulas. Mais tarde, suas notas de aula, especialmente as de mecânica quântica, física nuclear, e termodinâmica, foram transcritas em livros que ainda são impressos.
Fermi morreu prematuramente, aos 53 anos de idade, vítima de câncer no estômago, provavelmente causado pela exposição a materiais radioativos.

Niels Henrik David Bohr

(1885 - 1962)




Nascido em Copenhague no dia 5 de outubro de 1885, Niels David Bohr formou-se em Física em 1911. Nesse mesmo ano transferiu-se para o Laboratório Cavendish, na Universidade de Cambridge. Aí trabalhou com J. J. Thomson, com o objetivo de concluir a elaboração de sua tese sobre eletrônica.
No ano seguinte foi para Manchester, para trabalhar com E. Rutherford. Este, recém-chegado do Canadá, não escondeu sua admiração pelo jovem assistente, definindo-o como "o homem mais inteligente que já tenha conhecido", sem saber que mais tarde Bohr seria o continuador de sua obra no estudo da interpretação da estrutura do átomo. Rutherford acabara de propor uma nova teoria "nuclear", baseando-se em experiências sobre o espalhamento de partículas alfa.
Para Bohr, o encontro com Rutherford foi decisivo: daí por diante resolveu dedicar-se ao estudo da estrutura do átomo. De fato, Rutherford descobrira que o átomo possui, no centro, um núcleo no qual se concentra praticamente toda sua massa. Os elétrons, descobertos por J. J. Thomson poucos anos antes, localizavam-se ao redor do núcleo. Não se sabia exatamente, porém, como esses elétrons se dispunham e quais suas relações com o núcleo.
Voltando à Dinamarca em 1913, Bohr procurou estender ao modelo atômico proposto por Rutherford os conceitos quânticos sugeridos por Plank, em 1900.
Bohr acreditava que, utilizando a teoria quântica de Planck, seria possível criar um novo modelo para descrever o átomo, capaz de explicar a maneira como os elétrons absorvem e emitem energia radiante. Esses fenômenos eram particularmente visíveis na análise dos espectros luminosos produzidos pelos diferentes elementos. Ao contrário daquele produzido pela luz solar, esses espectros apresentam linhas de luz com localizações específicas, separadas por áreas escuras. Nenhuma teoria conseguira até então explicar o porquê dessa distribuição.
Estudando o átomo de hidrogênio, que é o mais simples de todos, Bohr conseguiu, em 1913, formular seu novo modelo. Concluiu que o elétron desse átomo não emitia radiações enquanto permanecesse numa mesma órbita, mas somente ao se deslocar de um nível mais energético (órbita mais distante do núcleo) a outro de menor energia (órbita menos distante).
A teoria quântica lhe permitiu formular essa concepção de modo mais preciso: as órbitas não se localizariam a quaisquer distâncias do núcleo; ao contrário, apenas algumas órbitas seriam possíveis, cada uma delas correspondendo a um nível bem definido de energia do elétron. A transição de uma órbita a outra não seria gradativa, mas se faria por saltos: ao absorver energia, o elétron saltaria para uma órbita mais externa; ao emiti-la, passaria para outra mais interna. Cada uma dessas emissões, de fato, aparece no espectro como uma linha luminosa bem localizada.
A teoria de Bohr, embora tenha sido sucessivamente enriquecida e em parte modificada, representou um passo decisivo no conhecimento do átomo, podendo ser comparada à introdução do sistema de Copérnico em contraposição ao de Ptolomeu. Embora em ambos os casos se tratasse de uma primeira aproximação, foi o aperfeiçoamento dessas hipóteses que possibilitou mais tarde a elaboração de teorias mais precisas.
Assim, graças a Copérnico foi possível compreender o mecanismo do universo em geral e do sistema solar em particular; quanto a Bohr, sua teoria permitiu a elaboração da mecânica quântica partindo de sólida base experimental.
A publicação da teoria sobre a constituição do átomo teve enorme repercussão no mundo científico. Com apenas 28 anos de idade, Bohr já conhecia a fama, prosseguindo sua brilhante carreira.
De 1914 a 1916 foi professor de Física Teórica em Manchester. Voltou depois para Copenhague, onde, em 1920, foi nomeado diretor do Instituto de Física Teórica. Finalmente, sua contribuição foi internacionalmente reconhecida quando recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1922, aos 37 anos de idade.
Sua produção científica prosseguia no ritmo incansável de sempre: com o fim de comparar os resultados obtidos por meio da mecânica quântica com os resultados que, com o mesmo sistema, se obteriam na mecânica clássica, Bohr enunciou o princípio da correspondência. De acordo com esse princípio, a mecânica clássica representa o limite da mecânica quântica quando esta trata de fenômenos do mundo microscópico.
Estudou a interpretação da estrutura dos átomos complexos, a natureza das radiações X e as variações progressivas das propriedades químicas dos elementos.
Bohr dedicou-se também ao estudo do núcleo atômico. O modelo de núcleo em forma de "gota de água", que ele propôs independentemente de Frenkel, foi tratado quantitativamente.
O modelo revelou-se muito favorável para a interpretação do fenômeno da fissão do urânio, que abriu caminho para a utilização da energia nuclear. De fato, Bohr notou que durante a fissão de um átomo de urânio desprendia-se enorme quantidade de energia. Notou então que se tratava de uma nova fonte energética de elevadíssimas potencialidades. Justamente com a finalidade de aproveitar essa energia, Bohr foi até Princeton (Filadélfia) para se encontrar com Einstein e Fermi e discutir com eles o problema.
Em 1933, juntamente com seu aluno Wheeler, Bohr aprofundou a teoria da fissão, evidenciando o papel fundamental do urânio 235. Tais estudos permitiram prever também a existência de um novo elemento, descoberto pouco depois: o plutônio.
Em janeiro de 1937, em Washington, participou da V Conferência de Física Teórica, na qual defendeu a interpretação de L. Meitner e Otto R. Frisch, também do Instituto de Copenhague, para a fissão do urânio: que podia ser feita uma comparação grosseira entre um núcleo atômico de massa instável e uma gota de água que se rompe.
Apenas três semanas depois os fundamentos da teoria da "gota de água" foram publicados na revista "Physical Review". Essa publicação foi seguida por muitas outras, todas tratando da parte mais "íntima" dos sistemas atômicos: o núcleo e a disposição e características dos elétrons que giram em torno dele.

 "É a noite de 23 de setembro de 1943. Na cidade de Copenhague, mais uma vez o toque de recolher traz o silêncio forçado. Mas a Resistência dinamarquesa - uma das mais bem organizadas da Europa - não cede. Continua sua incansável e perigosa missão de ajudar pessoas que procuram deixar o país ocupado pelas forças alemãs.
Nessa noite, um pequeno barco de pesca leva a bordo um clandestino excepcional, cuja permanência na Dinamarca poderia ser incalculavelmente vantajosa para os alemães. Niels Bohr, um dos maiores cientistas europeus em questões nucleares, é levado até a Suécia, de onde embarca num avião que se dirige para a Inglaterra.
Como medida extrema de segurança - uma vez que o avião pode ser abatido pelos inimigos -, o cientista viaja numa cabina especial que em caso de perigo pode ser aberta para deixar seu ocupante cair de pára-quedas. E leva consigo uma garrafa para cerveja cheia com "água pesada" (uma vez em Londres, porém, verificaria que se havia equivocado, transportando por 900km, com todo o cuidado, uma garrafa para cerveja contendo. . . cerveja).
Bohr deixa seu país pelo receio de ser enviado a um centro de pesquisas nazista, onde deveria colaborar na construção de armamentos atômicos."
Um ano após ter-se refugiado na Inglaterra, Bohr transferiu-se para os Estados Unidos, ocupando o cargo de consultor do laboratório de energia atômica de Los Alamos, onde cientistas do mundo inteiro canalizavam todos os seus esforços na construção da bomba atômica.
Compreendendo a gravidade da situação e o perigo que essa bomba poderia representar para a humanidade, Bohr dirigiu-se a Churchili e Roosevelt, num apelo à sua responsabilidade de chefes de Estado, no sentido de evitar a construção da bomba.
Mas a tentativa de Bohr foi inútil. Em julho de 1945 a primeira bomba atômica experimental explodia em Alamogordo. Em agosto desse mesmo ano, uma bomba atômica destruía a cidade de Hiroxima, matando 66.000 pessoas e ferindo 69.000. Três dias depois, uma segunda bomba foi lançada em Nagasáqui.
Em 1945, finda a II Guerra Mundial, Bohr voltou à Dinamarca, sendo eleito presidente da Academia de Ciências. Continuou apoiando as vantagens da colaboração científica entre as nações e para isso foi promotor de congressos científicos organizados periodicamente na Europa e nos Estados Unidos.
Em 1950 Bohr escreveu uma carta aberta às Nações Unidas em defesa da preservação da paz, por ele considerada como condição indispensável para a liberdade de pensamento e de pesquisa. Em 1957 recebeu o Prêmio Átomos para a Paz. Ao mesmo tempo, o Instituto de Física Teórica, por ele dirigido desde 1920, firmou-se como um dos principais centros intelectuais da Europa.
Bohr morreu em 1962, vítima de uma trombose, aos 77 anos de idade.