domingo, 24 de abril de 2011

O Projeto Manhattan

Físicos importantes como Leo Szilard, Edward Teller e Eugene Wigner, todos europeus que fugiram para os Estados Unidos a fim de escapar da guerra, sentiram a necessidade de alertar o governo norte-americano sobre o risco que surgiria caso a Alemanha desenvolvesse armas nucleares primeiro. 
Albert Einstein e Szilard ficaram preocupados a ponto de escreverem uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, descrevendo a ameaça alemã e a possibilidade de construir armas poderosas com urânio. Depois de consultar o economista Alexander Sachs, Roosevelt decidiu que seria necessário começar as pesquisas sobre energia nuclear e estabeleceu o Comitê Consultivo do Urânio, presidido por Lyman J. Briggs.
O processo se acelerou com a ajuda de Vannevar Bush, presidente da Carnegie Foundation, que foi apontado para a presidência do Comitê Nacional de Pesquisa de Defesa por Roosevelt, na metade de 1940. Bush integrou o Comitê do Urânio à nova organização, o que propiciou mais verbas e mais segurança para os cientistas. O passo seguinte foi dado em 28 de junho de 1941, quando Bush se tornou diretor do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento Científico
Os cientistas do projeto Manhattan

O Comitê Nacional de Pesquisa de Defesa se tornou um órgão consultivo do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento Científico, e o Comitê do Urânio passou a ser conhecido como Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento Científico - Seção Urânio, bem como pelo codinome S-1.
Locais onde o projeto era executado
Ainda em julho de 1941, Bush recebeu o impulso que precisava para colocar o projeto em funcionamento real. O Comitê MAUD, versão do Reino Unido para o programa de desenvolvimento de uma arma nuclear, lançou o Relatório MAUD. Embora os recursos da Inglaterra estivessem distendidos em função da situação do país na Segunda Guerra Mundial, as contribuições teóricas dos britânicos para o projeto da bomba foram inestimáveis, e o relatório confirmou para muitos de seus leitores que uma bomba nuclear e o enriquecimento do urânio-235 eram definitivamente possíveis.
Bush estabeleceu diversos grupos de pesquisa, a maioria dos quais em universidades como Berkeley e Colúmbia, e colocou a operação em funcionamento com injeções de verbas ainda mais elevadas - Lawrence, por exemplo, recebeu US$ 400 mil para suas pesquisas sobre eletromagnetismo. O sigilo ainda era uma prioridade crucial, apesar do dinheiro adicional, e os cientistas escolheram locais estranhos de trabalho a fim de esconder seus esforços - muita gente se choca ao descobrir, hoje, que os físicos Enrico Fermi e Arthur Compton usaram o espaço sob as arquibancadas do Stagg Field, o estádio de tênis da Universidade de Chicago, para conduzir a primeira reação nuclear em cadeia, em 1942. 
Oppenheimer, à esquerda, com  Leslie Groves
Em março de 1942, o Corpo de Engenharia do exército dos Estados Unidos se envolveu diretamente nas reuniões do S-1 e, em 18 de setembro, o coronel Leslie Groves se tornou diretor do projeto, que assumiu oficialmente o nome de Projeto Manhattan. Com formação sólida em engenharia (ele supervisionou a construção do Pentágono), Groves provou ser um administrador muito eficiente e contribuiu imensamente para o sucesso da bomba em um prazo incrivelmente curto.
Ao longo dos 12 meses seguintes, Groves selecionaria diversos locais nos Estados Unidos que contribuiriam para a construção da bomba, entre os quais Oak Ridge, Tennesee (Local X) e Hanford, Washington (Local W). Os dois locais abrigariam imensas instalações de produção de plutônio e urânio. Quando Groves selecionou Robert Oppenheimer, professor de Física teórica em Berkeley, como diretor do Projeto Y. 
Os dois escolheram Los Alamos, no Novo México, como o local que serviria de pólo central ao Projeto Manhattan. 
Alojamento em Los Alamos
Los Alamos, bem como as instalações no Tennessee e no Estado de Washington, era um lugar isolado, selecionado por motivos de segurança, mas seria difícil imaginar que era esse o caso, diante de fotos que mostram essas instalações em plena produção. O desolado altiplano desértico de Los Alamos, por exemplo, foi transformado em uma pequena cidade, com laboratórios, escritórios, refeitórios e alojamentos para todos os envolvidos no projeto. Oppenheimer trabalhou com afinco para reunir os melhores cérebros científicos do país e, por quase três anos, do fim de 1942 ao bombardeio de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, milhares de pessoas trabalharam para superar o desafio envolvido na construção de    uma arma atômica. 
Teste da Bomba Atômica Trinity
A segurança era extremamente rígida em Los Alamos e as pessoas mal recebiam autorização para manter contato com seus familiares e amigos durante a sua estadia no Local Y. Os guardas do complexo eram rigorosos quanto à concessão de licenças de segurança e havia arame farpado em torno de todo o complexo. O Projeto Manhattan estava envolto em tamanho segredo que algumas pessoas nem sabiam para que serviria o trabalho em que estavam envolvidas, até que surgiu a notícia sobre a bomba que explodiu em Hiroshima. 
Dirigentes examinando o local da explosão
Dois tipos de bombas nucleares foram projetados em Los Alamos: uma bomba de implosão e uma bomba de disparo. Depois que importantes aperfeiçoamentos foram realizados no implosivo, os especialistas enfim selecionaram um local para o teste da primeira bomba atômica - Alamogordo, um campo de provas de explosivos no deserto, a 340 quilômetros ao sul de Los Alamos. O local recebeu o codinome "Trinity", para o teste de uma bomba de plutônio. Oppenheimer teria supostamente recordado um poema de John Donne que dizia "abalai meu coração, ó Deus trino", e considerou que a comparação procedia. Às 5h30min do dia 16 de junho de 1945, a bomba foi acionada. Com uma carga equivalente a 18 mil toneladas de dinamite, a bomba produziu uma luz vinte vezes mais brilhante que a do Sol. A luz chegou a ser vista em cinco estados vizinhos. Ouvida a mais de 300 quilômetros de distância, a explosão abriu uma cratera de 400 metros de diâmetro em um milionésimo de segundo. Dentro dela, surgiu um material verde e transparente, resultante da fundição dos minerais. A substância foi chamada trinitita, em referência ao ponto do deserto onde ocorreu a explosão: a Era Atômica havia começado.
Horas depois da explosão, o cientista Robert Oppenheimer, um dos chefes do Projeto Manhattan, inspecionou o local e exclamou: “Tornei-me a Morte, a Destruidora dos Mundos.”
Menos de um mês mais tarde, os EUA usariam a bomba de implosão e a bomba de disparo, que não havia sido testada, a fim de coagir os japoneses a se render. Ainda que a bomba tenha teoricamente encerrado o conflito no exterior e evitado a necessidade de combater em terra no Japão, sua existência deflagrou uma corrida armamentista nuclear que mudaria radicalmente o mundo na segunda metade do século 20.